Não é só um verbo!

(http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4013367-EI8425,00-Nao+e+so+um+verbo.html)

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Em artigo muito interessante, de cunho filosófico, digamos, Antonio Cícero comenta (Ilustrada, FSP 19/9/09) o efeito de sentido da construção "pensar o mundo", comparado com o de "pensar sobre o mundo".

Para introduzir a questão, diz que "pensar" pode ser intransitivo, transitivo direto ou transitivo indireto. Que, como transitivo direto, seu objeto é normalmente (1) uma oração substantivada ("eles pensam que a terra é plana"), (2) um verbo ("penso sonhar") ou (3) um nome ou pronome com função adverbial ("penso isso" por "penso assim", "penso o contrário" por "penso de modo contrário").

Haveria diversas questões a discutir nessa passagem. Por exemplo, é bem duvidoso que "penso isso" queira dizer "penso assim", e que, então, o pronome tenha função adverbial. Provavelmente, "isso", em "penso isso", retoma uma fala anterior. Exemplo: "- Acho que o Zelaya é um ...". "- Eu também penso isso (= que o Zelaya é um...).

Mas minha questão aqui será por que, em "penso sonhar", o objeto direto seria um verbo. Antecipo que não é.

É estranho que mesmo um filósofo escorregue num equívoco bem comum em textos de não especialistas em análise linguística. É usual ouvir que uma sequência x é composta de sujeito e verbo. Afirmações assim são equivocadas por várias razões.

Vejamos duas. Se digo que o primeiro elemento é o sujeito, deveria qualificar o segundo com uma categoria da mesma classe. Assim, se o primeiro termo é um sujeito, o segundo é um predicado (ou um núcleo de predicado, se houver mais algum elemento que acompanhe esse núcleo). Para fazer sentido dizer que o segundo elemento é um verbo, deveria dizer que o primeiro é um substantivo (ou um nome) ou um pronome etc. Ou seja: deve me servir de categorias morfológicas (nome, verbo) ou de categorias sintáticas (sujeito, predicado) em ambos os casos. Antonio Cícero deveria dizer que "sonhar" é um objeto direto, e não que é um verbo.

Este é um erro. O outro está em não perceber que, em exemplos como o de Antonio Cícero, "sonhar" é uma oração. O período "penso sonhar" se organiza em duas orações, como deveria ser sabido, pois é elementar. Uma é "penso sonhar", a outra é a oração subordinada, "sonhar", objeto direto de "penso". Tanto é assim que o próprio texto, mesmo errando em outros detalhes, diz que este é um exemplo de "pensar" transitivo direto. Então, o que segue é seu objeto direto.

Mas uma oração pode ser composta de apenas um verbo? Para uma teoria que aceita que há orações reduzidas (de infinitivo, de gerúndio, de particípio), sim. Aliás, pode-se mostrar que "sonhar", no exemplo, é uma oração, fazendo dela uma paráfrase: "penso que sonho". A estrutura de ambas é exatamente a mesma, e elas são sinônimas:

(penso ( sonhar))

(penso ( que sonho))

"Que sonho" e "sonhar", como até se pode ver nessas representações, têm exatamente a mesma função sintática: objeto direto de "penso".

Na verdade, há um terceiro erro na afirmação de que "sonhar" é um verbo. Não só "sonhar" é uma oração, como, sendo uma, tem um sujeito (apagado, é verdade, mas ele está lá, e surge quando se muda a estrutura infinitiva, sonhar, por uma finita: (que) eu sonho.

Esta afirmação só faz sentido em uma teoria que aceite apagamentos de elementos sintáticos (uma teoria da elipse, na verdade, bastaria). Pode ser que muita gente não aceite a "presença" de um sujeito de "sonhar" em casos assim. Mas a análise que diz que "sonhar" é uma oração objetiva se baseia nas gramáticas tradicionais que todos conhecemos (!) e que, para muitos, são as únicas que existem. Espero que ninguém diga que há outra interpretação para o sujeito de "sonhar" que não seja o mesmo do verbo anterior, como se pode ver melhor em:

(eu) penso sonhar = (eu) penso que eu sonho

(ele) pensa sonhar = (ele) pensa que ele sonha

(nós) pensamos sonhar = (nós) pensamos que nós sonhamos.

Então, "eles pensam que a terra é plana" e "(eu) penso sonhar" têm exatamente a mesma estrutura. Não seria necessário que A. Cícero separasse os exemplos (1) e (2): "sonhar" também é uma oração substantiva (e não substantivada, aliás).


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