Ele, Caetano, falou de lingüística

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Sírio Possenti

Há algumas semanas, em seu blog, Caetano Veloso falou de lingüística. O título do texto do dia era "lingüistas" (o tom parecia com os associados usualmente a expressões negativas, como quem diz "mulheres" ou "petistas" para ressaltar características que um homem ou um tucano acham típicas, e que lhes soam negativas).

É difícil discutir todos os aspectos do texto. E sei que destacar algumas passagens de certa forma descaracteriza o pronunciamento. Mas vou fazer isso, apesar dos riscos, porque há aspectos claramente destacáveis (pelo menos do ponto de vista de um lingüista; de um tipo de lingüista, pelo menos).

Primeiro, registre-se que as opiniões de Caetano têm algum lustro: leu certos textos e freqüentou certos meios (os concretistas, que liam Jakobson, que citava e era citado etc.). E, obviamente, ele não é bobo. Nem totalmente preconceituoso... Mas esse tipo lustro nem sempre favorece.

Vamos, pois, aos comentários de algumas passagens do post dele.

Quanto à lingüística propriamente dita, li Saussure (aquelas aulas) no início dos anos 70. Li somente porque os poetas concretos falavam dele... todos falavam de Jakobson, que falava dele.

Aquelas aulas? Pois é. Aulas sobre Saussure têm sido pequenos desastres. Em geral, ele passou para a história (em cursos de letras e de comunicação) como o cara da dupla face do signo, o significante e o significado. Mas, de fato, isso não é próprio do Saussure. Nem a arbitrariedade dessa relação. Saussure é o pensador do sistema, dos valores, da diferença (ler sobre as entidades lingüísticas, por favor). E foi assim que ele passou para a história da lingüística.

O que disse sobre o significante ser a imagem acústica é certamente relevante, porque põe o fonema, por exemplo, num espaço psicológico específico (se tivesse sido compreendido nesse particular, não leríamos os Sacconi da vida dizendo que fonemas são os sons da língua, nem haveria ditados fonêmicos em escolas de medicina ou de fonoaudiologia). É mais ou menos como achar que a relatividade é o relativismo. Pessoalmente, prefiro os "erros" da tradição às achegas parciais a propostas novas. Um bom Newton é melhor que um Planck mal digerido.

Fiquei maravilhado com a afirmação de que a língua é viva e mutante na práxis dos falantes: a língua é falada, a escrita seria apenas uma notação convencionada a posteriori, como as pautas musicais.

"Práxis dos falantes", obviamente, não é Saussure. O tempo é, para ele, a categoria fundamental para explicar a mudança. Vago? Acho que sim, mas esse é Saussure. Práxis é marxismo ("sério" ou de boteco, pouco importa). Importante: se essa tese de Saussure chamou tanto a atenção de Caetano, aposto que foi porque tinha sido levado a pensar, ou porque talvez estivesse pensando, que as línguas são mais ou menos imutáveis (o que, de fato, de vez em quando, volta com força no post dele, não à toa, eu achei. Gostou da idéia, mas não "conseguiu" incorporar).

Nunca vou esquecer sua observação de que o francês é a única língua ocidental que tem uma palavra cuja grafia não guarda nem um só dos valores fonéticos originais das letras que a compõem: "oiseaux".

A afirmação acima fecha seus comentários sobre o que Saussure teria dito sobre a escrita. Ficou a anedota, como freqüentemente ocorre. E o exagero (a única língua ocidental: ou o professor "acrescentou", ou foi no bar; sempre um bom lugar, aliás). As poucas páginas de Saussure sobre a escrita são extremamente lúcidas e seriam revolucionárias ainda hoje (se fossem lidas). Continua válida inclusive sua reclamação de que os lingüistas "não têm vez em capítulo" - quando as questões de escrita são discutidas - e por isso, ele acha, "a forma escrita tem, quase sempre, superioridade" (Curso, pg. 36). "Oiseau" (singular, no Curso) é um excelente exemplo, claro (como a pronúncia é wazô, nenhum dos sons é representado na escrita), mas é do tipo que fica na memória por seu caráter anedótico, não pelo efeito que deveria produzir como exemplo crucial das teses de Saussure sobre o tema.

Caetano conta que, quando veio a Campinas para um show, ganhou um livro de uma professora sobre diferenças entre português do Brasil e de Portugal. Comentários postados garantem que se trata de um livro de Charlotte Galves. Se for, quase todos os comentários de Caetano estão errados. Ele deve ter esquecido também de algum outro livro que leu. Mas, mesmo que tenha lido outro, duvido (mas essa é uma aposta) que alguém tenha escrito o que ele diz que recorda - sobre tu/você etc. Ah, acrescenta que o livro "era escrito num português excelente". O que ele esperava?

Depois ele discute uma entrevista de Marcos Bagno à revista Caros amigos. O que escreve sobre isso exigiria longas considerações, porque tanto há mal-entendidos, se, de fato, o que Saussure teria dito o impressionou, quanto discordâncias ideológicas a serem discutidas em detalhe.

Na semana seguinte, comentando mensagens de leitores, acrescentou, por exemplo, que "as pessoas que dizem 'grobo' são as mesmas que têm vocabulário menor, menos acesso aos conhecimentos, menos poder". Menos poder, sim. Vocabulário menor é coisa que se pode discutir. Já que citou Lévi-Strauss, ouso sugerir que leia O pensamento selvagem. Talvez mude de opinião. Pensando bem, acho que não mudaria, porque a questão é fortemente atravessada por ideologia, que argumentos "objetivos" dificilmente afetam.

Mais: diz, por exemplo, a propósito de conjugações como "tu vai":

... a resposta racional é que se conjugo o verbo sempre na terceira perco o direito de prescindir do pronome sujeito (é verdade: se a conjugação se "simplifica", isso afeta a sintaxe; o inglês funciona assim: algum problema? Mas por que essa é uma resposta racional?); ouço com prazer os "tu é" dos cariocas e os "tu vai" dos gaúchos, mas sei que há um empobrecimento de possibilidades do uso da língua (empobrecimento? É difícil de demonstrar: perde-se aqui, ganha-se lá, como se verifica se não houvesse possibilidades como as mencionadas, que são enriquecedoras, porque novas, diferentes das outras); de todo modo, não há porque não ensinar às pessoas como funcionam as conjugações, tendo em vista o pronome pessoal escolhido (mas as conjugações funcionam assim, exatamente como funcionam; ou ele quer dizer "como funcionavam", com "vós" e tudo? Nada contra, se fossem assim, mas por que não as de hoje?).

Aliás, amei ler no texto "medieval" de Maira "aa" em lugar de "à". Isso porque há anos digo que seria legal se escrevêssemos "aa", como feminino de "ao": ficaria bonito e não teríamos esse rolo da crase (que adoro mas vejo que é um sofrimento para muitos).

Sei que é uma bobagem, que pode parecer picuinha, mas duvido que Caetano cometa em música um erro tão banal quanto dizer que aa é o feminino de ao. Ou que, em espanhol, al é o masculino de a la. Puxa! O Pasquale lhe diria o que é isso!

Depois de discutir - a meu ver com alguns equívocos, a partir da entrevista de Bagno à Caros amigos - questões de norma culta versus variedades menos valorizadas, e de comentar criticamente a tradução de um título de Proust (no que concordo com ele), dispara:

O que isso tem a ver com os lingüistas, a língua falada, a norma culta, a norma oculta, a demagogia e a mania de pensar que o melhor modo de resolver o problema das favelas é destruir o sistema de esgoto de que desfrutam as "elites"? Tudo.

Bem, se ele entendeu que "defender" variedades lingüísticas populares, mesmo que sejam aceitas como "corretas", por serem empregadas em textos "cultos", determinadas construções ainda condenadas (como vende-se flores etc.) equivale a defender que não se leiam textos "clássicos" ou que se critiquemformas em franco desuso, então, de fato ele não entendeu nada (ou não podeentender). E não se trata de deficiência mental, que disso ninguém pode acusar Caetano. Trata-se mesmo de ideologia. Da qual, aliás, não é difícil descobrir traços em outros domínios sobre os quais Caetano opina como cidadão e também como artista ou homem-show.

Também acho que ele podia ter se poupado de gravar "Ou você me ama, ou não está madura", mas e daí? Dizendo isso, acho que estou elogiando Caetano. Mas concedo que não entendo nada de música, nem do circuito empresarial.

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