“Quero me livrar do meu cachorro, mas sem judiar. Como faço?”

por SAMARINA SOARES DE SÁ

A língua refrata a sociedade, seus costumes e hábitos. Passa constantemente por mudanças, incorpora novas expressões e, sem que percebamos, já atribuímos às novas palavras outros significados e mais significados e mais e mais, até que ela decide mudar novamente (para desespero dos gramaticóides).
Nenhuma das assertivas anteriores é estranha a quem já pagou cadeira de Linguística Introdutória ou a quem está ligado nas discussões sóbrias sobre Linguagem.
Acontece que, por vezes, nos deparamos com palavras que, apesar de já consolidadas, proveem de situações vexatórias e marcadamente abomináveis, tal como o verbo Judiar, presente na frase que intitula este comentário.
Judiar é maltratar? Sim. Certamente até a segunda metade do século XX esta expressão jamais seria compreendida e um enorme ponto de interrogação preencheria o vazio deixado pelo seu significado.
Judiar provém de judeu, e qualquer Manual de História Contemporânea explica quem é esse povo e por quais privações passou até se libertar dos cativeiros nazistas, motivo que justifica o significado atribuído à palavra como sinônimo de maltratar.
Recorrendo à memória brasileira, temos como exemplo o famigerado “denegrir”. Político adora dizer que seu opositor está denegrindo sua imagem perante a opinião pública, sempre que se vê acuado por gravações secretas e comprometedoras.
Denegrir lembra negro. Negro (ainda) lembra escravo. Se qualquer Manual de História do Brasil Colônia ao Império explica o que o negro fez pela economia do País do açúcar, do ouro e do café, bem como o status a ele conferido e as torturas por ele sofridas, nada complicado associar o significado ainda hoje atribuído ao “denegrir” como sinônimo de manchar, poluir e, por que não, sujar.
Estas palavras, confesso, me desagradam profundamente. Já que não é possível (nem seria viável) fugir das enormes portas abertas deixadas pela sensibilidade de quem incorpora as novas expressões à Língua Portuguesa, ou seja, os falantes, também não cabe a nós, educadores, omitir informações contextualizadas acerca dos significados atribuídos às expressões. Seria perder a oportunidade de conscientizar mentes em formação acerca do que permeia a incorporação de palavras ao nosso vocabulário. Nem tanto a terra nem tanto o mar.
Cataphorentos e simpatizantes, o que acham das palavras que possuem significados considerados “preconceituosos”? Como lidar com estas expressões em sala de aula? Deem mais exemplos. Opinem. Participem.

3 comentários:

  1. Uma reflexão bem bacana sobre os sentidos e "rumos" que as palavras da nossa língua tomaram. Retomar esses eventos que marcaram a história e trazer as influencias que eles tiveram em nossa língua é essencial num momento de interdisciplinaridade que ainda estamos engatinhando pra alcançar, forçosamente, através do ENEM. Reflexões como essa contribuem para nos interessarmos mais tanto pela nossa língua quanto por historia, e mais ainda, estudar a história da língua.

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  2. É realmente muito interessante o processo de transformação da língua. Palavras que utilizamos corriqueiramente apresentam bem mais significados do que imaginamos. Os exemplos acima nos mostram que os fenômenos sociais tem grande importância na evolução linguística e o ensino de línguas não pode abandonar esta relação tão bonita existente entre língua e sociedade.

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  3. Gostei muito do teu post, Samarina. É interessante observar o percurso histórico de termos que usamos, comumente, sem refletir sobre a origem de sua utilização, a motivação por trás do significado. "Judiar" e "denegrir" são bons exemplos de como a língua refrata a realidade social. Quanto à postura que nós, profissionais que trabalham com a língua, devemos tomar, concordo contigo. A língua refrata aspectos sociais e culturais, inclusive aspectos preconceituosos como é o uso de "denegrir" como sinônimo de "manchar". Não creio que seja nossa função ignorar um uso que é corrente. Devemos, sim, trazê-los à tona, analisar sua origem, seu uso.

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