É muito bom ser professor!!!

Certa vez, conversando com um amigo, agora advogado, questionei os altíssimos reajustes dos salários que já são enormes em muitos cargos no Judiciário. A resposta dele foi que, por exemplo, "um juiz estuda muito para estar onde está!". Agora pergunto: um professor, que se dedica e busca qualificações em pós-graduações do tipo mestrado e doutorado, etc., estuda menos que um Magistrado? Será que nas correções quase diárias de redações a que o professor de Língua Portuguesa está submetido, ele não terá o mesmo trabalho que um juiz julgando um "pilha" de processos? Então, por que a disparidade de reconhecimento social?

Abaixo temos um discurso de formatura (diga-se de passagem, um belo depoimento bastante sensível) da agora mestranda pela UFPI, Leila Rachel, a respeito dessa realidade. Depois da leitura, reflita sobre!!!!!


"Antes de tudo, eu queria contar para vocês um quase conto de fadas: Era uma vez, em uma escola que parecia um castelo, uma menininha linda que adorava sua professora. Um dia, ela foi até essa mesma professora e disse: “Tia, quando eu crescer quero ser professora igual à senhora”. Lindo momento, professora surpresa (já que nem sempre ela escutava desejos desse tipo), menina encantada. No entanto, no dia seguinte, a menininha vai até a professora, com o olhar triste e diz: “Tia, eu não vou mais poder ser professora como a senhora porque minha mãe disse que eu vou morrer de fome e que não é para eu falar isso nem de brincadeira”. E todos viveram menos felizes para sempre... É por causa de historinhas como essa, que todos os dias são recontadas, que o que tenho para falar hoje não se baseia em lembranças das alegrias, dissabores, encontros e reencontros que vivemos durante o curso de Letras, mas em uma evocação de esperança de que, um dia, quando um jovem vestibulando anunciar que pretende fazer um curso de Licenciatura, os olhos de todos o olhem com reconhecimento e que não se faça a pergunta “Por que você não escolheu um curso melhor?”. Esperança de que durante a graduação desse mesmo jovem suas experiências durante o curso sejam ouvidas com atenção e interesse, sendo dada a devida importância aos fatos. Esperança de que a formatura desse jovem seja um orgulho para todos os que o rodeiam, que se tenha orgulho de dizer “Estou me formando em Letras”. O que pouca gente sabe é que uma das grandes dificuldades enfrentadas por quem faz Licenciatura não é a falta de salário adequado, mas a falta de incentivo adequado, não por parte dos órgãos públicos, mas por parte da família, dos amigos, da sociedade que acha até mesmo a nossa formatura menos digna do que a de outros cursos. Uma desvalorização que age como se cometêssemos um atentado ao bom senso ao nos tornarmos professores, que não permite que crianças sonhem com essa profissão, que adora ficar com pena dos profissionais da educação que ganham um salário ínfimo, mas quando vai buscar seu filho na escola é o primeiro a tratar o professor com desrespeito. Não estudamos menos, não nos esforçamos menos, não temos ambições menores, não trabalhamos menos que qualquer outro curso, mas somos professores. E aqui, especificamente, somos professores de línguas, que, segundo o senso comum, são gramáticas e dicionários ambulantes, meros reprodutores do dito falar culto. Ah, como seria bom se soubessem que estamos aprendendo todo dia com a língua viva. Não que não tenhamos vivido bons momentos durante o curso que mereçam lembrança nesse dia tão especial, mas a vontade de fazer com que todos saibam que estamos aqui por opção, ainda que essa opção seja guiada por diferentes fatores, é tão grande que se torna quase absoluta. Também não há espaço para sentimentos de auto-piedade da nossa parte e nem de pena da parte de todo mundo. Escolhemos, sabemos dos riscos e das glórias da profissão, mas sabemos também que uma das palavras mais pronunciadas em discursos de formatura não aparece à toa: DESAFIOS, que precisamos enfrentar, que queremos enfrentar, mas em condições justas, condizentes com a importância do nosso papel na sociedade. Não vou usar a frase lugar-comum de que não formamos somente alunos, mas, principalmente, cidadãos mas, posso dizer que não temos a tarefa de ensinar alunos a falar direito, afinal falar eles já sabem e muito bem, mas de fazê-los conhecer a nossa língua e descobrir um mundo de novas línguas e linguagens! “As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo.” Assumimos essa citação como um espécie de lema da nossa turma por acreditarmos que temos um trabalho enorme de transpor fronteiras universais através do ensino de línguas. Cada idioma traz um mundo consigo e ao orientarmos nossos alunos por entre o aprendizado das facetas dessas línguas, descortinamos mundos e mundos. Apaixonante, envolvente, importante e indispensável! Escolhemos a linguagem como nosso universo, somos professores e daqui há algum tempo ouviremos um conto com final feliz quando estivermos caminhando por aí. Um dia, uma mulher linda e distinta parará uma velha professora e dirá: A senhora lembra de mim? E a professora, fazendo um leve esforço, lembrará daquela menininha que um dia quis ser igual a ela e vai sorrir ao escutar: “Nunca me esqueci da senhora e da sua contribuição para que eu seja o que sou.” Que bom que esse final feliz também se realiza com frequência. Escolhemos (ou não) o que íamos ser quando crescer, mas eu me lembro de professores que passaram pela minha vida e marcaram profundamente. E vocês? São capazes de lembrar?"

Leila Rachel Barbosa Alexandre (Mestranda em Letras pela UFPI)

5 comentários:

  1. Sempre me perguntei: a partir de qndo o professor passou a ser desvalorizado como hje em dia? Porque na Grécia Antiga e ate uns séculos atras o professor era valorizado e até tinha muito prestigio, pois eram e são os maiores estudiosos de suas áreas. É uma profissão ardua e desafiadora, não é facil esta numa sala com mais de 40 cabeças pensando em vairas coisas e tentar atrair a atenção, e ainda despertar interesse!!! Só o fato de formar profissionais de todoas as areas, os professores mereciam e merecem ser valorizados!!! Acredito q o grande responsavel por esta desvalorização é os politicos, principalmente, pois se os professores conseguissem boas condições de trabalho e remuneração merecida, os cidadãos seriam mais criticos e o país teria um desenvolvimento maior, mas isso é ruim pra "alguns"... Um abraço a todos os professores!!! E parabens, de novo Leila, pelo belo discurso!

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. É verdade... É bom ser professor. Não, é ótimo! Mas é preciso reconhecer que não é fácil. É uma profissão que exige um conhecimento que é contínuo, sempre renovado, reciclado, atualizado... e mais, trabalhamos, ainda, além dos muros da escola: em casa, corrigindo, elaborando, estudando, criando etc. etc. etc..
    Pena que não somos reconhecidos positivamente por isso. Ao contrário, somos vistos como pobres coitados que se acabam de trabalhar e que ganham muito pouco por isso. Certa vez, um colega - que entou junto comigo no curso de Letras, depois desistiu e já deve está se formando em Direito - desanimado, me disse que a única profissão em que se tem trabalho todo dia, dia e noite é a de professor. Na hora, lembrei de muitas outras profissões intensivas, como a nossa, mas preferi não comentar...
    Isso me fez refletir acerca do outro lado da moeda. Já que pude perceber também que um outro grande problema que macula a classe dos professores não está no resto da sociedade, que nos desvaloriza, mas em boa parcela dos próprios professores, que são professores, não por escolha, mas porque não puderam passar no vestibular para um curso que não fosse de licenciatura... Daí, o profissional já nasce frustrado, decepcionado consigo mesmo... Passa pela graduação de qualquer jeito, e o pior, se "forma" e vai para as escolas "ensinar" os alunos a serem reprodutores das mesmas ideologias fracassadas das quais foi também vítima o professor... e mais vítimas ainda os alunos...
    Ser professor é ótimo, mas quando queremos ser, quando temos a responsabilidade, o compromisso e a vocação que a profissão EXIGE.

    ResponderExcluir
  4. Lene tu tocou num ponto chave dessa discussão: a desvalorização que vem dos próprios professores. Lembro que quando decidi fazer Letras, no 3º ano do Ensino Médio, fui perguntar para a professora de Português como era o curso, saber daas experiências dela... Ela me disse: "Por que tu não estuda pra fazer um curso melhor?". Imagina! Depois ela falou para a sala toda que ela só fez Letras porque não conseguiu passar para Direito... Uma sala de aula cheia de adolescentes em processo de escolha do vestibular escutando uma profissional falar isso... é desanimador. Engraçado que muitos de nós quando somos crianças temos como brincadeira preferida a de "escolinha" e juramos que quando crescermos vamos ser professores, mas, em alguma etapa da vida esse desejo se perde... por quê?

    ResponderExcluir
  5. Lendo vocês lembrei um texto do Rubem Alves sobre educação dos sentidos como forma de fazer amor com o mundo. Acredito que seja isso: ter amor, prazer e desejos pra despertá-los por aí! Pelo que sinto, vocês têm pique pra tal ereção da alma, como dizia Fernando Pessoa...

    meu abraço que beija

    ResponderExcluir