Quais serão os nomes de crianças do futuro no Brasil?



[O texto a seguir foi publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, de 15 de abril de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/37247-enrico-e-luiza-serao-os-nomes-do-futuro.shtml


Enrico e Luiza serão 'os' nomes do futuro


Ricos estão se inspirando na Itália para batizar filhos; outras classes sociais devem seguir tendência, dizem especialistas
Nomes populares de hoje, como Lucas e Beatriz, estão em baixa nas listas das escolas, aponta estudo da USP

RICARDO MIOTO
COORDENADOR DE ARTIGOS E EVENTOS

Nas próximas décadas, Enrico, Lucca e Enzo se tornarão nomes bastante comuns entre os jovens paulistas. Sofia, Luiza e Pietra também.
Devem se aproximar de Lucas, Gabriel, Jéssica e Beatriz, os mais comuns nas escolas do Estado. Lucas, aliás, está em decadência: após ir de 0,5% dos garotos em 1989 para quase 5% em 1994, é 2,5% agora.
Os nomes em ascensão foram adotados pelos pais das classes mais ricas na década de 1990, indica estudo da USP.
É possível dizer que eles vão se popularizar porque o rico é, no longo prazo, quem cria as tendências. Essa teoria está em dois livros americanos na última década: "Freakonomics" (2005), de Steven Levitt e Stephen Dubner, e "Do Que É Feito o Pensamento" (2007), de Steven Pinker.
É um círculo: as escolhas dos ricos ganham "status" até serem adotadas pelo resto da sociedade. Aí tais nomes se banalizam, e os endinheirados procuram novas opções. Nas palavras mais duras de Pinker, "a elite quer se diferenciar da ralé, que sempre vai imitá-la. É interminável".
No Brasil, a lista de nomes que têm hoje maior correlação com alta renda paterna foi feita pelo economista Lucas Scottini, em seu mestrado recém-defendido na USP.
Ele usou dados do governo paulista com mais de 10 milhões de alunos. Scottini ressalta que o objetivo não era indicar nomes que vão se popularizar, mas usá-los como identificadores de classe e de raça.
O estudo mostra que nomes italianos caíram no gosto dos ricos. E se a lista de presença das escolas de elite já parece a escalação da seleção da Itália, isso logo se espalhará.

'RECICLAGEM'

Há ainda os nomes que ressurgem: Frederico (9º mais ligado à riqueza) ou Catarina (12º entre as meninas). Pinker, com o exemplo americano, explica: nomes são reciclados. "Se você está entre Max, Rose e Sam, está num asilo ou numa creche."
Nesse sentido, veja o nome de alguns filhos de artistas que acabam sendo parte dessa elite criadora de moda: Joaquim (Angélica e Luciano Huck), Theodoro, Sebastião (Nando Reis), Antonia (Giovanna Antonelli), Francisco (Fernanda Lima) e Bento (Caio Blat).
Há um fenômeno específico dos nossos pobres: imitar a elite de fora. "Nos anos 1990, tivemos um boom de Daianas e Leidianas (com todas as grafias imagináveis), de Maicon, de Deivid", afirma Scottini.
"A ideia de modismo é ampla. Escolhas de certa forma revelam o clube a que pertencemos ou queremos pertencer", diz Marcos Rangel, orientador de Scottini. Ele também acredita, porém, que mais dados e estudos são necessários nesta área. Elabora agora um trabalho sobre os sobrenomes da escravidão.
E para quem diz que economistas deveriam se preocupar com coisas mais sérias?
"Eu já esperava que muitos colegas achariam meu trabalho patético e irrelevante, que rissem. Mas a economia trata de pessoas e decisões. Ninguém escolhe o nome do filho na roleta", diz Scottini.

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