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A pesquisa científica




Armando Gallo
Yahn Filho


Neste mês de abril, eu entreguei o meu último relatório científico à Fapesp, após 36 meses como bolsista de doutorado, e aproveito o momento para fazer uma reflexão sobre a pesquisa científica no Brasil.

Desde que ingressei no mestrado, encontro com diversas pessoas fora do meio acadêmico que me perguntam o que eu estou fazendo da vida. Ao dizer que fazia mestrado e, agora, que estou concluindo meu doutorado, ambos na condição de bolsista, sempre fui indagado com uma das seguintes perguntas: “você quer ser professor universitário?” ou “e você não trabalha?”

Ora, a primeira não seria uma pergunta equivocada caso: 1) o conceito de professor universitário nela embutido não estivesse restrito àquele que cumpre a sua função tão-somente em sala de aula; 2) a universidade fosse o único local de desenvolvimento de pesquisa. Algumas vezes, prevalece a ideia de um ensino superior limitado, desconhecendo-se por completo a função de pesquisador, que deveria estar incluída no conceito de professor universitário. Em outras, o problema está no fato de que, apesar de se conhecer a profissão de pesquisador, ela está associada ao ambiente acadêmico.

O primeiro problema é de ordem social e suas raízes estão na própria educação de primeiro e segundo graus, com estrutura curricular e metodologia de ensino desatualizadas. Em nenhum momento, durante o ensino médio, levanta-se o debate sobre desenvolvimento científico e tecnológico e a carreira de pesquisador, de forma que este só se encontra, na maioria das vezes, nas universidades públicas, com exceção de algumas privadas.

O segundo problema é de ordem econômica e está ligado aos investimentos em ciência e tecnologia no país e à concentração da pesquisa científica nas universidades. Não obstante o Conselho de Ciência e Engenharia dos Estados Unidos ter apontado, em seu relatório bianual, um crescimento de 10% nos investimentos em pesquisa no Brasil, ainda assim estamos muito abaixo no ranking global. Os investimentos mundiais em ciência e tecnologia somaram US$ 1,1 trilhão, em 2007, enquanto, no Brasil, eles ficaram em US$ 13 bilhões, em 2006.

Ademais, ainda que as empresas privadas respondam pela maior parte desses investimentos, a pesquisa científica, no Brasil, ainda está muito restrita às universidades públicas, conforme já salientou o Professor Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp. Disso decorre uma fuga de pesquisadores brasileiros para outros países e uma leva de doutores e pós-doutores desempregados.

Por outro lado, decorrente da visão equivocada do que seja um professor universitário e do desconhecimento da existência da profissão de pesquisador, está a confusão entre pós-graduação stricto sensu e lato sensu. Uma confusão que implica na falsa ideia de que mestrado e doutorado (stricto sensu) são simples continuidades da graduação, restritos às salas de aula, buscando-se “aprender” o que estava fora da grade curricular daquela. Dessa forma, cabe a mim, sempre que indagado se também trabalho, explicar que o dinheiro público que recebo para fazer doutorado em uma universidade pública só se justifica pelo fato de que: 1) eu já estou trabalhando; 2) este trabalho tem como objetivo trazer um novo conhecimento para o país; 3) pesquisador é uma profissão.

Ou seja, é necessário deixar claro que o 1% do ICMS paulista que financia a Fapesp, e de onde se originam bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, tem como objetivo a inovação científica e tecnológica que contribui com o desenvolvimento do Estado e do país, bem como traz soluções para problemas que afetam a sociedade brasileira.

Portanto, o desenvolvimento científico e tecnológico, no Brasil, está vinculado a um modelo educacional que transmita uma visão ampliada de conhecimento e a políticas de incentivo ao investimento em pesquisa fora das universidades, garantindo a permanência de pesquisadores no país e aumentando o número de registros de patentes nacionais.

Armando Gallo Yahn Filho é advogado, mestre em Relações Internacionais (Unesp) e doutorando em Ciência Política (Unicamp)

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