FUTURO DOS JORNAIS

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2209200921.htm

SABATINA FOLHA CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA "Jornalistas são arrogantes e não querem ser melhorados"
Ombudsman da Folha atribui erros do jornal a pressa, preguiça e ignorânciaNONO OMBUDSMAN da Folha e há 18 meses no cargo, Carlos Eduardo Lins da Silva, 56, afirma que os jornais e jornalistas são arrogantes, prepotentes e não aceitam contestações. "Não gostam de ouvir críticas, em nenhuma hipótese, e não querem ser melhorados", disse o jornalista, sabatinado ontem durante duas horas em São Paulo por quatro entrevistadores: o colunista da Folha Marcelo Coelho, as jornalistas Eleonora Gosman, correspondente do jornal argentino "Clarín", e Verónica Goyzueta, correspondente do espanhol "ABC", e Eugênio Bucci, professor da ECA-USP e colaborador de "O Estado de S. Paulo".DA REPORTAGEM LOCAL
Durante o evento, realizado para lembrar os 20 anos da criação desse cargo no jornal, Lins da Silva falou sobre o dia a dia da atividade, sua independência em relação à Direção do jornal e à Redação, apontou erros da Folha e defendeu a criação de mecanismos de autorregulamentação pelos veículos de comunicação. "Ou os jornais se autorregulam para melhorar ou eles vão ser regulados por alguém, e vai ser muito pior para todo mundo." Cerca de 90 pessoas acompanharam a sabatina no Teatro Folha, em São Paulo. FHC x Lula "Muitos leitores acham que a Folha foi mais condescendente com o governo Fernando Henrique Cardoso do que com o governo Lula. Essa é uma resposta que só pode ser dada por meio de um trabalho acadêmico, científico, metodologicamente e comprovadamente constatado. Fica-se muito no terreno das impressões. [...] Na minha impressão, a Folha era muito dura com o presidente Fernando Henrique também. Ele tinha sido colunista da Folha durante muitos anos antes de se tornar presidente. [...] Quando deixou a Presidência, tinha tanto ressentimento em relação à Folha que foi ser colunista do "O Estado de S. Paulo"." Credibilidade"O que mais fere a credibilidade do jornal não é o tipo de crítica que ele recebe, mas o tipo de erro que comete. Se o jornal comete erros graves, a sua credibilidade paga. As críticas não são tão importantes quando são dirigidas por questões ideológicas ou por condicionamentos partidários. Parece-me que é muito pequeno o impacto desse tipo de crítica sobre a credibilidade do jornal no conjunto da sociedade. Mas quando o jornal comete erros graves, que podem ser imputados a posicionamentos ideológicos, acho que a credibilidade se fere." Dilma No caso do dossiê [da ministra] Dilma [Rousseff] fiz sugestões muitos concretas. Foi um caso polêmico, muito controvertido e nenhuma delas foi atendida. [Foi a situação] da reprodução de uma suposta ficha da ministra Dilma do período em que ela era militante de um movimento revolucionário no regime militar. Essa foto foi publicada na primeira página da Folha como se fosse verdadeira. Depois a Folha disse que não tinha como provar que era verdadeira, mas também não tinha como provar que era falsa. [...] Na minha opinião, é um dos dois erros mais graves que a Folha cometeu ao longo desses 18 meses. Gripe O outro [erro], mais grave ainda, é o da gripe A (H1N1). Há exatamente dois meses, a Folha, em chamada de primeira página, disse: "Em dois meses, trinta e tantos milhões de brasileiros devem estar infectados e 4,4 milhões devem estar internados". Isso baseado em um modelo matemático que não era alimentado por dados a respeito dessa gripe, mas sim de outras gripes do passado. Esse acho que esse foi o erro mais grave que a Folha cometeu nesse meu período [como ombudsman]". Pressa e preguiça"80% dos erros que saem no jornal podem ser atribuídos a três fatores: pressa, preguiça e ignorância. E acho que isso não tem muito como mudar, a não ser com um controle firme do comando da Redação." Autorregulamentação"Os jornais, a imprensa, os jornalistas são arrogantes, prepotentes, não gostam de ouvir críticas em nenhuma hipótese e não querem ser melhorados. Se a imprensa não se autorregular, ela vai ser regulada por alguém e será pior para ela. Por que o ombudsman, que é uma forma modesta de autorregulação, não se dissemina no país e no mundo? Porque os jornais e a imprensa não gostam de ser reguladas nem por si próprias. A autorregulação é uma premência para a liberdade de imprensa. Futuro do impresso"Não tenho dúvida de que sim [que o jornal impresso sobreviverá na era on-line]. Acho que todos esses apocalípticos que já marcaram a data de quando o último jornal impresso irá circular estão errados, assim como todos os que diziam que o rádio ia acabar quando a TV chegasse estavam errados, assim como os que diziam que a TV ia acabar quando a internet chegasse estavam errados. Os meios vão se adaptando, mudam de papel e de nicho no mercado. É claro que o rádio hoje não é o mesmo da Rádio Nacional, quando todo mundo se sentava ao lado do aparelho para ouvir o Francisco Alves. Mas o rádio hoje vive seus melhores momentos, encontrou seu nicho, que é o rádio no carro, o rádio em casa, de manhã. O jornal impresso também vai encontrar o seu nicho. [...] O importante é que o jornal sobreviva. Porque a gente corre o risco de viver numa sociedade em que os fatos não têm mais importância, só as opiniões têm importância." Novo projeto"O modelo que a Folha adotou em 1984 não é mais o de hoje. O papel do jornal impresso mudou completamente nesses anos. O que a Folha precisa é de um novo projeto para o século 21, que priorize a profundidade, a complexidade do tema, que concorra com a mídia eletrônica, com análise, profundidade e autonomia na investigação. Não vejo mais nenhum sentido em o jornal sair com manchetes, 23 horas depois de o fato ter acontecido, para "informar" ao leitor que o avião da Air France caiu. [...] Teve o caso da morte do Michael Jackson. A morte dele não deveria ter sido manchete para um jornal como a Folha. Foi um erro. [...] Acho que o jornal está num momento de indefinição e de incerteza em relação a seu futuro e titubeia às vezes naquilo que ele é." Ombudsman "Muita gente não entende, de fato, qual é a função do ombudsman. Muitas vezes recebo mensagem de leitor, com críticas à Folha, que termina assim: "Com a palavra, o representante da Folha". Não sou representante da Folha, sou representante do leitor. Eu nunca falo em nome do jornal, não posso. Mas ser representante do leitor não significa que eu tenha de ser adversário do jornal, como muitos me cobram, porque o leitor não é inimigo do jornal." Distância "Minha relação com a Redação é muito distante. Eu não trabalho na Redação, e esse é um dos pontos importantes da condição de ombudsman, para não ser objeto da pressão diária dos colegas. Trabalho, a maior parte do tempo, na minha casa. Vou à Folha duas vezes por semana para atender leitores ou fontes que querem falar comigo. Portanto, a pressão que eu sinto da Redação é pequena." Independência financeira"Também concordo que, em princípio, pelo menos, os governos não deveriam anunciar, pagando. Acho que eles podem pedir a colaboração dos veículos, em situações como campanhas de vacinação, de calamidade pública e assim por diante. Esse é um problema concreto, que ameaça menos as grandes empresas do que as pequenas. Mas acho que a mesma situação ocorre quando um veículo fica dependente de poucos anunciantes particulares, porque os particulares também podem exercer o mesmo tipo de pressão. A situação ideal é ter uma diversificação de fontes de receita bastante grande, de modo que não dependa de um ou dois anunciantes, sejam eles públicos ou privados." Diploma"O diploma eu sempre achei que é uma falsa questão. Não há necessidade de uma formação de quatro anos em escola superior para alguém ser jornalista, é totalmente irrelevante."

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